por Henrique Perez da Silva Carneiro
O "meio associado" da IA contemporânea, isto é, dados, plataformas, conectividade, é em grande parte o próprio ciberespaço que Lévy descreveu, em "Cibercultura", como suporte de uma inteligência coletiva emancipatória. Essa cooperação em rede foi capturada como insumo produtivo gratuito ou subpago, interpretada a partir da leitura do general intellect que Pasquinelli atualiza para a IA em "Eye of The Master" e "Nooscope". A "inteligência coletiva" de Lévy foi cunhada a partir da perspectiva de que a internet seria um espaço de cooperação horizontal, não de extração de valor. É importante contextualizar que o livro “Cibercultura” é de 1999, tradução brasileira do original francês “Cyberculture”, de 1997, e que seu vocabulário, como virtualização, desterritorialização e "universal sem totalidade", permanece atual.
Para o autor, a inteligência coletiva é um modo de coordenação que poderia ampliar mutuamente as capacidades dos indivíduos sem subordiná-los a um organismo que os ultrapassa, ambivalência que o próprio Lévy deixa em aberto e que ele nomeia como pharmakon, veneno e remédio, da inteligência coletiva. Quanto mais a inteligência coletiva se desenvolve, mais ela pressupõe o questionamento das hierarquias, e o ciberespaço seria o suporte que apenas fornece o ambiente propício, sem determinar automaticamente esse desenvolvimento. Essa cooperação pressupõe sujeitos que participam voluntariamente de um comum simbólico, como fóruns, listas e MOOs, e não trabalhadores contratados, ainda que precarizados, para rotular dados sob meta de produtividade. Essa é uma das principais diferenças entre o comum teorizado por Lévy e o trabalho invisibilizado que as plataformas hoje absorvem.
Pasquinelli, em Nooscope, argumenta que a IA/ML é um dispositivo de extrativismo de conhecimento que reprocessa trabalho cognitivo e cultural coletivo, como dados, rotulagens, correções e cliques, como matéria-prima estatística. O conhecimento coletivo, produzido em rede e muitas vezes de graça, é capturado como treino de modelos, e o trabalhador geral se pulveriza em microtarefas de rotulagem, sem vínculo e sem reconhecimento de autoria coletiva.
A inteligência coletiva de Lévy era pensada como comum, e hoje é capturada como propriedade privada de poucas empresas de IA. Diante desse cenário, o desafio do Direito do Trabalho é lidar com o que vem além do vínculo formal.
