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AI-Washing: Entenda a tática por trás das despedidas em massa

por Henrique Carneiro

Com o discurso de antecipação de mudanças profundas provocadas pela implementação de inteligência artificial (IA), o mercado vive um novo momento. Segundo a consultoria Challenger, Gray & Christmas, a IA foi citada nos anúncios de mais de 50 mil despedidas em 2025.

Por outro lado, analistas apontam que empresas como a Amazon não estão despedindo devido à substituição da mão de obra humana pela ferramenta de arquitetura algorítmica treinada em dados, mas sim para liberar caixa e investir na própria tecnologia — a partir da construção de data centers, por exemplo.

A rede social de imagens Pinterest anunciou que reduzirá cerca de 15% de sua força de trabalho, sendo um dos motivos a realocação de recursos para funções focadas em IA. E o CEO da Hewlett-Packard (HP), Enrique Lores, afirmou em uma teleconferência com investidores em novembro que vê oportunidades de incorporar IA à HP, o que levaria a até 6 mil cortes de empregos nos próximos anos.

Por outro lado, quanto aos produtos, a Dell revelou que, no momento, os consumidores não estão comprando PCs apenas por seus recursos de IA. Uma admissão considerada "sincera", vinda de um dos maiores parceiros da Microsoft no mercado de PCs, especialmente considerando que a Microsoft continua a investir em recursos de IA para o Windows e a tentar convencer os consumidores a comprar PCs com o Copilot Plus.

O que é AI-Washing?

O que se observa é que as empresas, pouco a pouco, colocam a culpa das despedidas nas ferramentas de inteligência artificial. Essa prática ficou conhecida como “AI-washing”: quando se atribuem cortes motivados por razões financeiras à futura implementação de IA.

O termo é inspirado na descrição de práticas enganosas de marketing, como greenwashing e ethics washing. Surgiu, originalmente, para denunciar empresas que alegavam usar IA quando não usavam. Atualmente, o termo também descreve companhias que enfatizam a IA para explicar decisões como despedidas, quando o quadro tende a ser mais complexo do que a automação de postos de trabalho propriamente dita.

Segundo Molly Kinder, pesquisadora sênior da Brookings Institution que estuda IA e trabalho, essa tática permite que executivos sinalizem ao mercado que sua empresa é de ponta e acompanha o estado da arte, uma mensagem bastante amigável para investidores.

Embora a IA possa, de fato, acabar transformando alguns setores do mercado de trabalho, um estudo recente no qual Kinder trabalhou para o Yale Budget Lab concluiu que a ferramenta ainda não alterou de forma significativa o mercado como um todo.

Para o Direito do Trabalho, essa prática levanta discussões sobre a transparência e a boa-fé objetiva nas despedidas coletivas. Se uma empresa utiliza a 'inevitabilidade tecnológica' como cortina de fumaça para cortes puramente orçamentários, ela não apenas engana investidores, mas também pode enfraquecer a negociação sindical.

Essa prática reforça, dentre outras boas práticas, a necessidade de auditabilidade algorítmica. Se a justificativa é a IA, o ideal seria saber onde e como essa substituição ocorre de fato. Caso contrário, é apenas uma nova roupagem para a precarização antiga.


Saiba mais em:
The New York Times: Layoffs & AI-Washing
The Verge: Dell admits consumers don’t care about AI PCs

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