Por Henrique Perez Carneiro
Empresas que embutiram IA generativa nos fluxos de produção de relatórios, e-mails e apresentações, muitas vezes compelindo equipes a cumprir metas de adoção tecnológica para justificar investimentos, estão lidando com um efeito colateral incômodo. O material é produzido com formatação limpa e jargão correto, mas na hora de fundamentar uma decisão ou instruir um procedimento interno, falta substância. Para esse descompasso entre aparência e conteúdo foi dado o nome de workslop.
O termo junta work (trabalho) e slop (malfeito), e descreve a entrega produzida com auxílio de IA que, na pressa de ganhar velocidade, sai rasa demais para cumprir a finalidade para a qual foi pedida. Segundo um levantamento conduzido pelo Stanford Social Media Lab e BetterUp Labs, publicado na Harvard Business Review, 41% dos trabalhadores relatam ter recebido esse tipo de material no mês anterior à pesquisa. O fenômeno atinge tanto líderes, sobrecarregados com entregas rasas (18%), quanto subordinados constrangidos em apontar inconsistências nos materiais recebidos de seus próprios gestores (16%).
O workslop engana porque simula uma entrega finalizada. Quem recebe precisa reler, checar dados e, não raro, refazer trechos inteiros. Quanto mais polido o conteúdo parece à primeira vista, mais difícil é perceber que ele não sustenta a análise. A pesquisa buscou medir o custo em tempo dessa prática que passa a sensação de otimização para quem envia, estimado em quase duas horas por episódio para quem recebe.
Em uma organização com dez mil trabalhadores, estima-se que o valor acumulado ao longo de um ano pode passar de nove milhões de dólares, cerca de 48 milhões de reais. O dano afeta também as dinâmicas de equipe, pois, segundo a pesquisa, quem repassa workslop passa a ser percebido pelos colegas como menos criativo (54%), menos capaz (50%) e substancialmente menos confiável (49%). Além disso, 32% dos profissionais afirmam que evitariam trabalhar novamente com o remetente no futuro, enquanto 34% levam o episódio à chefia ou aos colegas.
Quem gerou o conteúdo "economiza" tempo, mas transfere para quem recebe a tarefa de revisar, corrigir e, em muitos casos, reescrever. A pesquisa sugere que ferramentas de IA generativa, quando utilizadas, sirvam para polir e revisar ideias já estruturadas pelo profissional, e não para gerar conteúdos do 0.
Saiba mais em: Harvard Business Review
